Foz Côa - Barca D’Alva
Percurso de automóvel - Extensão aproximada 150 Km
A partida para este passeio pela Terra Quente transmontana faz-se de Vila Nova de Foz Côa. A vila ganhou notoriedade
com a descoberta das gravuras rupestres do vale do Côa e com toda a polémica que envolveu a sua preservação, ameaçada pela barragem da EDP. Siga em direcção ao Pocinho, a descida deixou de ser um labirinto infernal: os 10 km são sinuosos mas tanto o piso como a largura da estrada estão dentro dos limites da decência. Após o encerramento do serviço até Barca D’Alva, é aqui que termina a Linha do Douro. Quem nunca viajou entre Mosteirô e a Régua, Pinhão ou Pocinho, não sabe o que perde: o comboio desliza rente às águas, acompanhando as voltas do rio e o arredondar dos cabeços. À volta, amendoeiras, vinhas e laranjais e um perfume doce que sobe da terra ao pôr-do-sol. E, no final do Inverno, a surpresa das amendoeiras em flor.
Cruze o Douro, passando sobre a barragem do Pocinho, e tome a estrada para Macedo de Cavaleiros, o
IP 2. O trajecto desenvolve-se numa primeira fase ao longo do Vale do Sabor, transformado num lago devido à construção da barragem. À medida que se vai para montante as águas vão baixando, e chegando à ponte sobre o sabor e ao desvio para Torre de Moncorvo (por onde passa noutra fase deste passeio) já o rio voltou ao seu aspecto normal. A estrada começa a subir, deixando à direita uma das principais falhas geológicas da península, a falha da Vilariça. Nas duas margens da ribeira do mesmo nome situam-se alguns dos mais férteis terrenos nacionais, rivalizando com a veiga de Vila Pouca de Aguiar e com as hortas da Póvoa de Varzim.
Abandone o IP 2 – que em pouco tempo o faria chegar a Macedo de Cavaleiros ou a Bragança, atravessando as faldas da serra de Bornes – e vire para Vila Flor, em plena Terra Quente transmontana.
Vila Flor, segundo as crónicas, deve o nome a D. Dinis e é uma agradável surpresa: o conjunto urbano está relativamente preservado e não há intrusões gritantes de centros comerciais de betão nem de “maisons”.
É para o Douro que se segue este passeio. Seguimos a fantástica descida para o rio a partir de Vilarinho da Castanheira. De um lado e doutro da estreita rampa há casinhas de pedra que parecem saídas de um conto de fadas, rodeadas de hortas
verdejantes. Chegar ao pôr-do-sol é uma experiência inesquecível: a passarada chilreia, um comboio passa a apitar na margem contrária, direito à estação de Freixo de Numão. O perfume das laranjeiras envolve-nos e tudo à volta é banhado por uma luz dourada.
O estradão ao longo do Douro permite um passeio de meia dúzia de quilómetros, gozando a vizinhança das águas. Para montante, quase até à Barragem do Pocinho, fica a lendária Quinta do Vesúvio, que foi de D. Antónia Ferreirinha, a célebre matriarca do vinho do Porto. Em sentido contrário, o estradão leva até às proximidades da estação do Tua e da confluência deste com o rio Douro.
Regresse à ponte sobre o sabor e ao cruzamento para Moncorvo. Moncorvo apresenta uma fabulosa Igreja Matriz de três naves (com o seu quê de catedral espanhola, pela forma da torre sineira e pelo tom amarelado da cantaria de granito), restos da muralha medieval e um museu ligado à histórica exploração das minas de ferro (antes das politicas industriais ditadas pela integração europeia, chegou-se a projectar uma via férrea para escoamento do minério de ferro que, saindo de Moncorvo, passaria o Douro no Pocinho e ligaria à Linha da Beira em Vila Franca de Naves).
A partir de Moncorvo, tome algumas estradas “rurais”, mas de piso e largura espectaculares, que atravessam a Serra do Reboredo, através de paisagens belíssimas, até Barca D’Alva.
Após passar em Maçores e Ligares (uma surpresa esta aldeia, tão populosa e extensa), tome uma cortada à direita da EN 325 que levará até ao encontro com a EN 221, 2 quilómetros a leste de Barca D’Alva. A paisagem é grandiosa, desenvolvendo-se o projecto ao longo de um vale apertado. Um dos pontos mais bonitos deste percurso situa-se no local em que a estrada cruza o ribeiro: antes da ponte de pedra encontra-se, à direita, uma quinta com as casas de pedra; já na outra margem, num outeiro, um conjunto de casinhotos a pedir cansativa mas gratificante escalada a pé. O vale vai alargando e começam a avistar-se as vinhas do Douro.
Na estrada nacional, seguindo para a esquerda, o destino é Freixo de espada à cinta e, mais a norte, nos Carviçais, o famoso restaurante “O Artur”. Pelo meio, Lagoaça, no Douro internacional, uma das mais fabulosas vistas sobre o rio.
Mas a opção é virar à direita e seguir até à abandonada estação de Barca D’Alva. É uma opção que quase releva de masoquismo: o viajante sensível às coisas do património dificilmente deixará de se indignar com a degradação para que caminha um espaço fabuloso constituído pela estação, armazém de madeira, depósito de água e cais. É espantoso que se deixe cair tudo de podre sem o aproveitar para pousada, museu, centro cultural ou para qualquer outra utilização condigna.
Informação compilada de Expresso – Guias de Portugal
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