Estremoz - Castelo de Vide
Percurso de automóvel - Extensão aproximada 135 Km
Este passeio pelo Alentejo inicia-se em Estremoz. A cidade merece um olhar à parte, razão pela qual será referida nas páginas seguintes. Uma vez visitada esta antiga praça-forte, dirijamo-nos para Sousel.
Um pouco antes, um desvio à esquerda assinala Casa Branca e Cano. Situada na margem da ribeira de Alcorrego, esta é a povoação mais antiga do concelho. Frente ao jardim, a igreja matriz, do séc. XVII, com janelas de sacada em ferro forjado. Mais adiante, Casa Branca, na margem direita da ribeira de Almafade, típica aldeia alentejana. Foi priorato e capelania da Ordem de Aviz. No interior da igreja matriz, uma capela-mor em mármore colorido.

Voltamos à EN 245 para atingir Sousel, atravessando os mais extensos e ordenados olivais do país. Apesar da antiguidade (foral de 1285), a vila testemunha apenas a opulência de famílias latifundiárias recentes, através das suas casas solarengas: as seiscentistas dos Teles de Matos e Cardoso de Lemos e a mais recente dos Bastos Ribeiro, à entrada da povoação. Isolada no cimo de um cabeço, a Pousada de S. Miguel, a três quilómetros da vila. Hotelaria de qualidade e preços a condizer. Aí nos quedamos no meio de uma quietude silenciosa, com vista sobre quilómetros de planície.
Atravessamos Fronteira. À saída, uma capela cujo adro constitui belo mirante sobre a ribeira de Avis e uma praia fluvial.
Pouco antes de Alter, corte à direita para Cabeço de Vide (não confundir com Castelo de Vide). No cimo surgem casas caiadas com cercaduras azul-marinho ou turquesa, com potes de sardinheiras. A torre de um relógio e um pelourinho de granito com quatro metros abrem caminho à muralha circular, tudo o que resta do castelo, e aí temos um dos mais surpreendentes miradouros de Portugal. O panorama abrange Portalegre, Alter do Pedroso, Avis, Sousel, Estremoz, Fronteira.
Em baixo fica o mais extenso Rossio do país, 600 metros ajardinados, convite a um plácido fim de tarde. No topo do Rossio coexistem a Capela do Espírito Santo, de nave em abóbadas ogivais, um palácio do séc. XVIII e uma discoteca.
No Largo do Espírito Santo, um belo cruzeiro em mármore, encimado por uma figura de Cristo e outra da Pietá.
Logo à entrada da povoação deve seguir a placa indicando “Termas” e “Estação”. Esta espelha a atitude da CP perante as linhas desactivadas. É uma pequena jóia a caminho da degradação, com janelas e pináculos em cantaria de granito; nas paredes, painéis de azulejo com motivos bucólicos, assinados “Battistini 1933”.
Próximo, no vale da Ribeira de Vide, ficam as termas da Sulfúrea, abertas de Maio a Outubro, com águas recomendadas no tratamento de reumatismos e de doenças da bexiga e rins. Os romanos tê-las-iam utilizado, mas o estabelecimento termal foi reedificado em 1885, no reinado de D. Pedro V. Tem um parque frondoso que convida à paragem.
Regressados à EN 245, chegamos a Alter do Chão. Chamada Abelterium pelos romanos, foi cruzamento estratégico das três vias militares que ligavam Lisboa a Mérida. O Imperador Adriano tê-la-ia destruído por falta de lealdade. D. Afonso III mandou-a reconstruir. D. Pedro I fundou-lhe o Castelo, em 1359. Uma aparição estranha, como se, em Lisboa, o Castelo de São Jorge se situasse no meio do Rossio. Logo se vê que nunca poderia ter sido fortaleza mas apenas edifício para acolhimento de senhores. De austeras linhas, dele emergem cinco torres, três rectangulares e duas cilíndricas, entre elas a de menagem, com 40 metros.
Há quem chame à vila a “Alter do Chão Barroco”, porque nela se expande este estilo durante os séculos XVII e XVIII, quer na arquitectura religiosa quer na profana. Destacam-se o Palácio do Álamo, no Largo da Fontinha, junto ao castelo, adquirido pelo Município e onde funcionam a galeria de arte, a biblioteca e o posto de turismo; o Palácio Brito Homem, a Casa Caldeira, o Palácio dos Condes de Alter (nas ruas Santarém e dos Arcos), onde se impõem as cantarias em granito e as balaustradas em ferro forjado.
No Palácio do Álamo, construído em 1732 por Diogo de Vasconcelos, podem ser apreciados tectos pintados e azulejos. A Câmara não acautelou, na compra à herdeira, o recheio do palácio, nem as imagens da capela, pelo que aquele se encontra despojado de tudo. À direita, um belo jardim com trabalhos em buxo e arvores exóticas, em recuperação.
Na mesma praça, atende-se no chafariz de mármore branco com um alpendre de friso lavrado, assente em colunas de capitéis coríntios, com os brasões de armas da vila e da Casa de Bragança.
Visite a igreja barroca do Senhor Jesus do Outeiro (séc. XVIII). Repare no portão e no janelão em cantaria de mármore e na torre sineira de quatro vãos. No interior, um coro alto, a capela-mor e a cobertura abobadada, guardando azulejos setecentistas, a “Paixão de Cristo” na cave e a “Assunção” na capela-mor, altares em talha e a imagem de Nossa Senhora do Carmo. A igreja situa-se no alto da vila, na Avenida do Senhor Jesus do Outeiro.
Para a visitar, peça a chave à Sra. D. Catarina Toca Sinos, que habita ao lado da antiga hospedaria dos romeiros, herdeira do avô e do pai da arte de sineira, que exerce na igreja matriz.
Junto ao castelo está a Igreja da Misericórdia, com portal em mármore, abóbadas com trabalho de massa, púlpito e altar em talha. Pedir a chave ao padre João. Na Rua de S. Francisco encontramos a igreja homónima, cuja chave está à guarda da Sra. D. Lança. Aí se destaca um conjunto de imagens de roca, dos séculos XVI e XVII. Mais pobre, na Rua do Convento, a igreja do Convento de Santo António, com altares de mármore e alguns bons trabalhos de madeira.
O mais antigo templo, datado do séc. XV, é a igreja paroquial de Alter do Pedroso, aldeia que dista três quilómetros e é um expoente da arquitectura popular alentejana. Do alto do castelo (mandado edificar por D. Dinis) improvisa-se impressionante miradouro.
Não deve perder uma visita à igreja paroquial, procurando a chave na loja da Sra. D. Adelaide Rosa, que lhe pedirá uma moeda para a caixa das esmolas. Atente no altar-mor em forma retabular, em que o dourado da talha combina com o vermelho dos fundos. Um arco central alberga o crucifixo; nos arcos laterais, dois nichos guardam imagens da Virgem com o Menino e de Nossa Senhora do Rosário. Nos altares laterais. Imagens da Senhora das Neves, padroeira da aldeia.
Em Alter não esqueça as ruínas romanas, na Rua da Corredoura. Já a 20 quilómetros, na estrada para Ponte de Sor, fica a ponte romana de Vila Formosa, quiçá a mais monumental do país, com 116 metros de comprimento e seis arcos de volta redonda.

Uma visita a Alter não fica completa sem a famosa coudelaria, onde se apura a raça do cavalo lusitano. Fundada em 1748 por D. João V e dinamizada por D. José, fornecia os animais de tracção e de sela para os serviços reais. O melhor período para as visitas é a manhã, para poder apreciar o ensino de potros. Num vasto terreiro impressiona um conjunto de casas rurais, sublinhadas pelo zarcão das portas e janelas e o amarelo das cercaduras.
No dia 24 de Abril e no primeiro sábado de Outubro realizam-se leilões. Por cinco mil euros já se compra um bom cavalo.
Para aparelhar convenientemente um cavalo são precisos selas e arreios capazes. É este o trabalho da correaria de Francisco Dias Antunes, onde se fabricam, também acessórios para caça. O seu conterrâneo Manuel Lopes Bruno faz candeias, almotolias e similares, na mais concorrida latoaria da região.
Deixamos Alter a caminho do Crato. A paisagem vai secando, os olivais dispersam-se, reaparece o sobreiro e o eucalipto já assentou as suas vorazes raízes. Na zona histórica da vila apreciem-se alguns testemunhos da sua antiguidade (em 1270 recebeu o primeiro foral, e em 1350 foi sede da Ordem Militar dos Hospitalários). Aqui viveu D. Álvaro, primeiro prior do Crato, cujo túmulo se encontra no Mosteiro da Flor da Rosa. Até ao séc. XVI a vila conheceu grande esplendor. E já nessa época que se celebram os casamentos de D. Manuel e de D. João III com duas irmãs do Imperador Carlos V.
Nas guerras, da Restauração, D. João de Áustria, à frente de um exército espanhol, arrasou a vila. Perdeu-se então todo o rico arquivo da Ordem de Malta. Desse tempo restam, na Praça do Município, a magnífica varanda do Grão-Prior, formada por três arcos de volta redonda com colunas, um balcão e uma cortina composta de rosácea e frestas. Observe, na mesma praça, a Casa do Município e um belo solar. Anotem-se ainda o edifício barroco, de influência religiosa, onde está instalado o Museu Municipal e a antiga cadeia setecentista, onde se guardou a Biblioteca Municipal.
A igreja matriz, embora muito alterada, tem notável conjunto de azulejos azuis e brancos, imagens de pedra dos sécs. XV e XVI e um altar-mor de talha dourada.
Ao sair para Nisa, corte em direcção a Flor do Crato. Num vasto terreiro, que foi sede de oficinas de olaria, encontra o grandioso Mosteiro da Flor da Rosa. Fundado em 1356 pelo primeiro prior do Crato, D. Álvaro, pai de D. Nuno Alvares Pereira, impressiona pela altura da nave da igreja e pela majestade das suas janelas e portais. Parte da estrutura caiu em 1897. A recuperação prossegue, embora se tenha perdido todo o conteúdo sacro do templo. Decorrem obras de inserção de uma pousada da ENATUR, projecto do arquitecto Carrilho da Graça, que lhe acrescenta uma estrutura de betão, mas permite a visita do monumento independente da instalação hoteleira, criando um diálogo arquitectónico entre história, paisagem e espaço.


Nas vizinhanças, na escola do mestre António Serra Dias, perpetuam-se os segredos da olaria local. Caso curioso, só há aprendizes do sexo feminino. As bilhas da Flor da Rosa são famosas pela hábil conjugação de duas características: a frescura (obtida graças ao uso de barro branco, poroso e magro) e a impermeabilidade (resultante da adição de barro vermelho, mais gordo e de maior plasticidade). João de Deus Serra é outro oleiro a visitar.
Antes de chegar a Nisa, passamos por Alpalhão, capital do granito, usado numa arte de cantaria que se encontra espalhada pelos monumentos alentejanos e é hoje produto de exportação para países longínquos. Nesta localidade ainda se fazem camas tradicionais em ferro forjado e restauram-se mobílias. Recomenda-se uma visita à Serralharia Alpalhense. E se com tantas voltas já tiver gasto as solas, experimente encomendar uns sapatos de couro que o artesão Jerónimo Massa lhe talhará à medida.
A próspera Nisa da época primitiva já se perdeu: situar-se-ia a três quilómetros do núcleo actual. Caiu nas lutas fratricidas entre D. Dinis e Afonso Sanches, e o Rei reedificou as muralhas que hoje albergam o núcleo histórico. A Câmara Municipal funciona numa casa apalaçada do séc. XVIII; a Igreja da Misericórdia tem portal renascentista, sendo a galeria suportada por cachorros de granito e o tecto abobadado. Ao lado, numa casa senhorial do séc. XVIII, o edifício da Misericórdia, onde há-de pedir a chave se quiser visitar a igreja. Na praça, a Fonte do Frade, em granito, e um pelourinho em mármore com a esfera armilar e o brasão da vila. A igreja matriz é digna de registo, reconstruída em 1796, após o terramoto, com altares de talha dourada e imagens em granito e os restos de um retábulo de pintura maneirista do séc. XVI. Saia pela Porta da Vila e vá ao espaçoso Rossio, onde ficam o posto de turismo e a Casa da Cultura. Na Praça da República encontra a Igreja do Calvário, com um púlpito em granito no exterior do monumento de planta octogonal.
Em Nisa juntou-se o bordado à olaria e as bilhas passaram das mãos de oleiros para as de mulheres, que, no barro ainda fresco, riscam desenhos preenchidos com pedrinhas de quartzo branco. Sugere-se uma visita à olaria de António Pequito, que faz cantarinhas, moringues, piporros e cantis.
No lugar de Cabeça de Mouro (Salão Frio, Ribeira de Nisa), a madeira com que se tecem as canastras «leva mais voltas que o pão», como explica José Roque. As varas de castanheiro bravo são cortadas e enterradas durante seis meses. São cozidas e, ainda quentes, rachadas e debulhadas. E este o oficio do citado cesteiro e do seu colega Francisco Baginha.

Saindo pela Porta de Montalvão, são 4,5 1cm até ao Santuário de Nossa Senhora dos Prazeres. A meio da encosta encontra a ermida dedicada à Senhora do local, com um portal gótico do séc. XIV. No alto fica a Ermida de Nossa Senhora da Graça, padroeira de Nisa (séc. XVI), em cujo interior encontra imagens em pedra. A vista alonga-se sobre amplo panorama, onde se descortinam as Serras da Estrela e de S. Mamede.
Voltemos a Nisa para a etapa final. Saímos na direcção de Montalvão e em seguida para Castelo de Vide - Póvoa e Meadas. Vamos fazer uma bela travessia da Serra de S. Mamede. Em frente penetra num circuito arqueológico que compreende a necrópole de Santo Arminho e da Boa Morte, o Parque Megalítico dos Coureleiros e a anta do Vale da Estrada. Contornando a Barragem da Póvoa, onde pode praticar pesca e vela, vai desembocar na EN 246 (perto tem a anta de Meltiça), que o levará até Castelo de Vide.
Informação compilada de Expresso – Guias de Portugal
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