Tavira - Castro Marim

Percurso de automóvel - Extensão aproximada 177 Km

A saída faz-se junto ao mercado de Tavira, na Praça da República. Ao lado, o rio Gilão desliza, preguiçoso, para a foz. AoPonte Romana sobre o rio Gilão (Tavira) centro, um espaço ajardinado com esplanadas, a convidar ao descanso e à leitura. Está numa das poucas localidades algarvias onde a “ cultura do hamburger e do refrigerante engarrafado” ainda não provocou estragos irreparáveis.
Para lá do mercado, a descarga dos barcos de pesca. Desse cais partem também os ronceiroas «ferries» para a ilha de Tavira, local onde, mesmo no mais carregado dos Agostos, o viajante disposto a uma caminhada talvez encontre a sua nesga de sol e de mar.

Será ao longo do Gilão, mas para montante, que a primeira parte do passeio se vai desenvolver. Ao fundo da praça e quando se encontra a centenária ponte de pedra, agora fechada ao trânsito, vamos em frente, seguindo a indicação «Vila Real». Faremos o mesmo 300 metros depois, na rotunda. Passamos sob o viaduto do caminho de ferro e continuamos paralelos ao rio, seguindo as indicações «Asseca» e « Moinho da Rocha».
A estrada acompanha o Gilão pela margem direita. É bonita, ladeada de muros de pedra e laranjais, embora estreita e sinuosa. Para visitar a queda de água dos Moinhos da Rocha devem ignorar-se algumas indicações colocadas à beira da estrada. Assim ao Km 7,9 deve cortar-se à direita, passar a ponte estreita sobre o Gilão e entrar em asfalto para a esquerda. Na primeira curva, seguir em frente para terra, direcção «Bodega». 1700m depois, parar o carro. Na margem oposta desemboca o ribeiro que procuramos. As quedas estão 50 metros para montante. Nem sempre a água corre, pois o regime de chuvas no Algarve é cada vez mais irregular. Regressemos até ao alcatrão, direcção Cachopo.
Ainda há quinze anos, parte deste percurso não estava asfaltado. Nalgumas vendas à beira da estrada havia grades de ferro nas portas e janelas. E, por detrás do balcão, caçadeiras devidamente municiadas, lembrança de tempos não muito distantes de tiroteios com salteadores ou ataque da quadrilha do Remexido. A estrada tem hoje um piso magnífico, as curvas são bem desenhadas e o trânsito é mínimo. Consoante o lado para onde se curve, ora avistamos a orla maritima, ora a sucessão de montes arredondados característicos da serra algarvia. Entramos num mundo à parte. Lídia Jorge poderia ter situado «O Dia dos Prodígios» em qualquer das aldeias que vamos avistando.
Aqui e além alvejam casas, e as indicações rodoviárias confirmam a existência de dezenas de aldeias (Malhada Alta, Águas dos Fusos, Feiteira, Fonte do Corcho, Almarginho) 15 km volvidos, uma cortada à direita indica a aldeia de Beliche, outros tantos quilómetros para leste. Lá encontrará a frescura da barragem, ladeada de colinas verdes pontuadas, aqui e além, por casinhas brancas. A sede do insaciável Algarve cosmopolita (cuja população quintuplica no Verão) tem exigido a construção deste e doutros lagos artificiais.
Na aproximação final a Castro Marim este percurso voltará a passar lá perto. Quem quiser abreviar a volta à serra e opte por deixar cair Cachopo, Martim Longo, e Alcoutim tem aqui a sua oportunidade de atalhar, reduzindo a um terço a quilometragem do passeio.
Adiante, a cerca de 12 km, a estrada atravessa a ribeira de Odeleite num local aprazível, a pedir paragem, descanso na esplanada à direita, ou , quem sabe, um banho retemperador.
Á esquerda algumas casas curiosas na aldeia de Monte da Ribeira (um estradão que corre ao longo da ribeira permite fazer uma ligação em todo-o-terreno ao Percurso 2, na aldeia de Cerro da Ursa).
Mais 7 km e eis-nos à entrada de Cachopo. Á esquerda, uma bomba de gasolina, aberta das 7.00 h às 23.00 h, que pode resolver algum problema ao viajante. Tal como o Café Retiro dos Caçadores que, não sendo propriamente o templo da cozinha serrana, fornece ao turista esfomeado um bife com dois ovos batatas qb por um preço bastante aprazível. A aldeia merece visita a pé. A igreja de Santo Estêvão ainda é ponto de festividades tradicionais: Senhora das Dores, em Agosto com procissão e feira, idem em Setembro e, finalmente Feira do Gado a 26 de Dezembro, pela festa do patrono.
Começam a aparecer as pequenas casas circulares em pedra, com telhado de colmo, hoje usadas como palheiros, mas cuja origem se adivinha antiquíssima. A provar que as artes e ofícios tradicionais não estão mortos, a oficina A Lançadeira permite-lhe ver um tear manual em actividade e adquirir mantas, toalhas e outros produtos de lã genuína. Os preços podem chegar aos 200€, mas não é material que apareça em supermercados, nem nas cadeias de lojas de marca. Próximo no lugar de Currais, Luísa ramos ainda vai trepando para o tear, apesar dos seus mais de 80 anos….
Está na hora de retomar viagem. No centro de Cachopo, corta-se para Martim Longo e, 500 metros depois, aparece uma cortada à esquerda para Mealha. Preparamo-nos para uma incursão de 10 km, primeiro por alcatrão e depois por terra, na serra algarvia.
O caminho lembra uma pista marroquina. E marroquina é também a paisagem: as colinassuas, as vertentes pedregosas, os pontões submersíveis sobre os «ueds». Mealha é o nosso objectivo, por duas ordem de razões: a primeira é a aldeia propriamente dita, pitoresca, com casas de pedra e os ineviaveis palheiros circulares; a outra é a Anta das Pedras Altas. Tantos a têm demandado que a aldeia em peso se juntará para o ajudar. Da única praceta cimentada lhe darão um azimute expedito, mandando-o olhar, primeiro para uma eira no alto da colina mais próxima e, depois, ao longe, para dois chaparros redondos no alto de um cabeço.
Siga um caminho de mau piso que sai do cruzamento da entrada da aldeia durante 1 km. Quando encontrar um eucalipto grande à sua esquerda, inicie a ascensão da encosta situada à sua direita. Uma vez atingida a linha de cumeada, está a cerca de 300m da anta, em linha recta. Siga um trilho no meio das estevas. A anta deverá aparecer-lhe ao lado esquerdo, parcialmente encoberta pelos arbustos. Não tendo a importância da Anta Grande do Zambujeiro (Évora), é como um TO neolítico: pequeno mas funcional. E, como na fábula da sopa de pedra, é o pretexto para um passeio a pé e uma visita excelente.

Concluída a visita, tem duas escolhas: ou voltar ao cruzamento do Cachopo pelo mesmo caminho e daí seguir pela EstradaIgreja Matriz de Martim Longo Nacional até Martim Longo, ou seguir as indicações para ameixial e daí, por estradão, apanhar a estrada nacional para norte. Chegados a Martim Longo, podemos adiar a visita e, no primeiro cruzamento, virar à direita e fazer os 8 km que nos separam da aldeia de Vaqueiros.

Ao pôr-do-sol, quem não ficará perdido a contemplar o namoro de um casal de cegonhas no telhado da alvejante igreja matriz? Templo quinhentista de uma só nave, tem interessantes retábulos na capela-mor.

Regressados a Martim Longo, recomenda-se, se forem horas de refeição, uma visita à Tia Anica. Não se trata propriamente de um restaurante. Como a senhora em causa viveu muitos anos em Marrocos, recolheu aí inspiração para uma criativa mistura das cozinhas algarvia, francesa e moura que faz as delicias dos visitantes. É indispensável a marcação – Tel. 281 498 313 – Recomenda-se, ainda, a visita á igreja matriz, com elementos góticos, retábulos do séc. XVII, uma interessante imagem de Nossa Senhora e pinturas murais quase desaparecidas. Na oficina artesanal A Flor da Agulha encontrará bonecos de juta, e, em Lutão de Baixo ( cortada à esquerda, quando se segue na direcção de Alcoutim), flores em palha de milho.
Retomada a viagem, toma-se a EN 124 para Alcoutim. Atravessamos o «deserto português» feito de serranias que escondem aldeias perdidas que já não exportam o azeite, o mel, o couro e o trigo pelos portos do Guadiana.
Volvidos 6km, viramos à esquerda para Giões. Aldeia curiosa (a igreja matriz tem imagens de S. Pedro – séc. XVI – e de Nossa Senhora do Rosário - séc. XV -), situa-se muito perto da fronteira com o Alentejo. 3km para norte, já a descer para o rio Vascão ( que faz a fronteira das duas regiões), encontra-se, à esquerda, uma cortada em terra sem qualquer indicação. Percorridos 300m em mau piso, chega-se ao Cerro das Relíquias, local aprazível e onde são visíveis os restos de um castro pré-histórico. Retomando a estrada para Alcoutim, tomaremos nota de que na aldeia de Pereiro, cada vez mais despovoada e com os retábulos da igreja matriz cada vez mais degradados, o restaurante O Central nos oferece petiscos à base de lebre e javali. Mas convém marcar o pitéu.

Atravessada a EN122, chegamos finalmente a Alcoutim. É altura de sentar na esplanada fronteira ao Guadiana, olhando oAlcoutim - Vista sobre o Guadiana e San Lucar casario branco do povoado espanhol de San Lucar. Fundeados no cais há quase sempre iates estrangeiros que se aventuram rio acima.
A vila tenta acordar de uma letargia de séculos, esquecida dos tempos em que foi importante porto fluvial, onde fenícios, gregos, romanos e árabes comerciavam com os povos agropastoris do interior. Ou dos tempos em que recebeu, ia o ano de 1371, os reis D. Fernando de Portugal e Henrique II de Castela para celebrarem a paz de Alcoutim.

A seguir ao posto de turismo, pode dirigir-se à sede da Alcancel (Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Alcoutim) onde o ajudarão a orientar-se na visita ou a contratar com um pescador um passeio até Guerreiros do Rio ou Pomarão. Virada ao rio com as suas casas brancas subindo em cascata. Alcoutim não é muito rica em património construído. O castelo, semi-arruinado, serve como miradouro. A igreja matriz apresenta um portal renascença, colunas com capiteis, um baixo-relevo colorido do séc. XVI e um cofre eucarístico em prata e madrepérola.

Vale a pena um desvio até à aldeia de Penteadeiros para ver as mantas de desenho em espinha de Maria Senhorinha, a decana das tecedeiras.
Voltemos à estrada para concluir o circuito deste outro Algarve. Até à foz do Odeleite há uma «marginal» bordejando o rio. Em Guerreiros do Rio, o Museu do Rio, embora modesto, não deixa de, através de textos e desenhos e fotografias, contar a história do comércio fluvial que desde os cartagineses, no séc.VII A. C. se fazia até Mértola (a 72km da foz). Pode, nesse local, contratar um passeio pelo rio até Alcoutim ou à foz do Odeleite. Apesar da decadência da pesca, ainda é possível comer alguns petiscos à base de peixe do rio.
Mais adiante, a povoação de Álamo, com dois conjuntos habitacionais coloridos. À entrada, uma barragem romana em razoável estado de conservação. A estrada inflecte para poente ao encontro da EN 122 e de Castro Marim.
Se fizer meia dúzia de quilómetros para norte, até Odeleite, terá oportunidade de tomar contacto com a cestaria de cana local. Muito apreciadas, as «condessas» com tampa.
António Domingos Gonçalves é o mestre mais conhecido, mas há mais artesãos qualificados.
Profundas obras de remodelação têm decorrido nesta área, com vista à conclusão do sistema hidráulico Odeleite-Beliche. Desapareceram os vestígios do castelo de Odeleite, a ponte rodoviária dos anos 40 foi submersa e surgiram dois grandes lagos artificiais. Uma hipótese de revitalização de aldeias como Alçarias (Beliche) ou Choça Queimada, Casa Branca, Carvalhinhos e Monte de Cima ( Odeleite). O acesso à barragem de Beliche faz-se junto à aldeia de Azinhal.

Nesta aldeia vai, provavelmente, encontrar rendeiras de bilros a trabalhar à porta de casa. A estrada, de piso irregular eCastro Marim - Vista da Fortaleza e Igreja Matriz muito curva, leva-nos até Castro Marim, através de uma paisagem de suaves colinas com árvores mediterrânicas, casinhas brancas e hortas domésticas.
Terra antiga, medieval fortaleza, mostra com nitidez como terá sido a gradual passagem do povoado alto e fechado dentro das muralhas para o sitio baixo e aberto envolvido pelos campos agrícolas.

Vale a pena fazer o percurso a pé em torno do castelo. Aí descobrimos vestígios de uma castiça arquitectura popular: reixas verdes e móveis, decorando e protegendo janelas, telhados de graciosas curvaturas com beirais e cornijas caiadas, platibandas policromas e super-decoradas.
Podemos começar no Largo das Portas (junto à igreja de Nossa Senhora dos Mártires), virando à direita pela Rua do Calvário, até chegar ao Largo da Ribeira. Depois, continuar pela Rua Direita até ao Largo do Poço e seu prolongamento até ás Portas. O essencial do núcleo está pressentido: monumentos religiosos, ruas residenciais e a vital ligação à água. Do alto do castelo medieval ou da fortaleza seiscentista, na colina vizinha, a vista soberba sobre o sapal e a foz do Guadiana. E a possibilidade de concluir a jornada com uma merecida refeição de peixe grelhado no Manel d`Àgua em Castro Marim.

Informação compilada de Expresso – Guias de Portugal
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